sexta-feira, 3 de junho de 2016

Análise: IT: A Coisa - Stephen King

IT: A Coisa

Nessa análise de obra do escritor Stephen King trago à luz de reflexões a história tenebrosa de IT-A Coisa (1990). Assim como muitos outros trabalhos do autor, este também ganhou adaptação no cinema sob a direção de Tommy Lee Wallace no início dos anos 90. Apesar das diversas opiniões contrárias, arrisco dizer que foi uma das melhores adaptações cinematográficas de algum trabalho de Stephen King, por ter sido muito fiel à obra literária. IT está no topo das criações mais pavorosas do escritor, investigaremos a seguir alguns dos principais elementos que fizeram dela mais uma obra-prima do horror na literatura.

Para o início da análise destaco a criatividade de Stephen King ao fazer uso de uma figura que popularmente assombra a maior parte das mentes humanas: um palhaço. Há um número grande de pessoas que sofrem de Coulrofobia, termo psiquiátrico designado para definir indivíduos que possuem pânico de palhaços, porém, mesmo pessoas comuns que não possuem essa síndrome pelo menos se arrepiam ao pensarem em um palhaço louco, em um palhaço assassino. Mas a introdução do palhaço, Pennywise, na história não foi apenas por conta do aspecto medonho da figura em si, ele está relacionado com uma parte muito importante da mensagem da obra: a infância dos protagonistas. O palhaço está associado à inocência das crianças da história.

A estrutura do romance está dividida em períodos que se intercalam entre a infância e a vida adulta de um grupo de amigos: Bill Gago, Richie, Stan, Mike, Eddie, Ben e Beverly. A forma que o escritor dispõe os capítulos mostra a característica comum em suas obras, o movimento do passado-presente. Nas outras análises feitas procurei destacar tal movimento e posso correr o risco de me tornar repetitiva, mas na história aqui analisada o fluxo temporal é um dos aspectos mais importantes da narrativa. Conhecemos esses personagens na infância, vemos como se encontraram e pelo o que tiveram de passar juntos. IT é uma história sobre amizade, confiança e união acima do terror que assola Derry, a cidade da obra. As 7 crianças das primeiras partes do livro precisam enfrentar seus piores medos e a figura de Pennywise, o palhaço, figura o próprio medo.

Como admirador declarado de H.P. Lovecraft é bem provável que Stephen King tenha se inspirado nas palavras dele: “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido” para criar a narrativa de IT. Pois, o medo é o elemento que norteia toda obra aqui tratada. Pennywise se alimenta do medo das pessoas, ele vive no subterrâneo da cidade de Derry. É necessário refletirmos sobre a construção espacial do habitat de Pennywise: o esgoto. A ideia de subterrâneo como local do maligno remete a crença cristã de inferno, do submundo onde as piores criaturas vivem e observam o mundo. A utilização do esgoto da cidade como o lugar em que Pennywise vive é proposital, nesse ponto destaco a existência do universo paralelo presente na maioria das obras de King. No caso de IT, esse universo existe em uma dimensão imaginária, apenas as pessoas que conseguem ver A Coisa (ressaltando que A Coisa é o próprio Pennywise, e que o palhaço é apenas uma de suas variadas formas) são arrastadas para essa realidade paralela. Uma realidade paralela horripilante e infernal a sustentar toda uma cidade que vive alheia ao universo funesto existente sob seus pés.

Em alguns momentos do livro Stephen King dá a Pennywise o aspecto de um Deus lendário faminto que se alimenta do que há de pior na imaginação das pessoas. Por essa razão as crianças são seus aperitivos favoritos, porque crianças possuem imaginação fértil. Através da imaginação Pennywise pode incitar o pavor, o pânico e se alimentar dele. O ato de se alimentar do medo é criado por King no sentido literal, o palhaço realmente devora pessoas e são nas passagens descritivas em que se alimenta dos restos humanos que está o elemento de repulsa da obra, o fator pavoroso. A fidelidade com que King dá ao ato de canibalismo pode causar sensação de repúdio em alguns leitores, mas é essencial para evocar e reforçar o aspecto de horror na figura do palhaço. O grupo de protagonistas encontra com Pennywise em diversos momentos a partir de seus medos mais íntimos, e precisam enfrenta-lo cara a cara. De fato há o confronto da Coisa que vive nos esgotos de Derry contra as crianças do grupo de Bill Gago, que é destacado como líder, porém, ao crescerem e alguns deixarem Derry para trás acabam esquecendo do acontecido. A vida adulta entra em cena e apaga da memória o que aconteceu de bom e de tenebroso na infância dos personagens.

Nos capítulos que tratam sobre o desenrolar da vida adulta dos personagens, notamos que o escritor faz uma reflexão sobre a morte da infância, pois, nenhum dos envolvidos no confronto contra Pennywise em Derry se lembram do acontecido. Todos tiveram a mente apagada, há um hiato em suas memórias onde a infância perdeu a força. Cada um à sua maneira construiu suas vidas adultas e perderam muito do que eram na infância. Stephen King trabalha habilmente com essa fase da vida em que o passado longínquo referente à infância deixa marcas difusas. Marcas estas que representam as lembraças fragmentadas de nossas infâncias que não conseguimos precisar detalhes. Derry acaba desvanecendo da vida das crianças que enfrentaram o mal da cidade no passado, mas que não o derrotaram de fato.

O fato decisivo em toda obra é o retorno das crianças, agora adultos, a Derry a fim de acabarem de uma vez por todas com Pennywise que voltou a despertar. Um personagem que ficou em Derry mesmo depois de adulto liga para os amigos e cobra a promessa que fizeram na infância. Interessante ressaltar que o único que não se esqueceu dos fatos da infância foi aquele que permaneceu vivendo em Derry. Pouco a pouco cada um dos personagens vai se lembrando de algo muito importante que ocorreu quando eram crianças, que haviam feito uma promessa, mas a memória é fraca, ela só ganha força novamente quando os elementos do grupo de Bill Gago entram na cidade.

Assim como acontece no universo de “O Iluminado” na composição do Hotel Overlook como uma entidade cheia de forças, Derry também exerce poder sobre os personagens, aí reside o sobrenatural. Um a um, os personagens começam a rememorar suas infâncias, e nós descobrimos elementos novos junto com eles, elementos que o escritor deixa para revelar quase ao fim do livro. O retorno dos protagonistas à Derry desperta os antigos medos infantis, Bill, Richie, Stan (que não retorna por ter cometido suicídio), Mike, Eddie, Ben e Beverly precisam enfrentar novamente as próprias armadilhas da imaginação. Eles reencontram Pennywise mais forte e mais faminto em variadas formas que assombram cada um de acordo com o maior dos seus pânicos. Juntos precisam encontrar a força necessária para adentrarem novamente no submundo de Pennywise e derrota-lo.

A mensagem principal que podemos apreender do livro reside no fato de que os indivíduos não podem sentir medo, o medo é o alimento da Coisa e quando ela não consegue despertar esse sentimento se torna enfraquecida. Através da coragem eles acabam por enfraquecer Pennywise em uma batalha tenebrosa nos confins dos esgotos de Derry, e para derrota-lo eles descobrem um elemento ainda mais forte que a coragem, a união. Apenas aquele grupo de crianças poderia matar Pennywise, e assim eles o fazem e é somente no fim que acabam por recordar tudo o que haviam prometido durante suas infâncias.

IT- A Coisa é mais do que uma narrativa de puro horror, ela trabalha vários elementos que se conectam, há uma belíssima mensagem por trás de todo mal disseminado por Pennywise em suas variadas formas. Destaco dentre todos recursos utilizados na narrativa a construção temporal, o escritor recorre em IT – A Coisa ao movimento cíclico que utilizou em obras como a saga “Torre Negra”, a ideia de roda em que o passado está constantemente influenciando os indivíduos nas suas escolhas presentes. A infância é retratada como a chave para o segredo da morte da Coisa, enquanto que a vida adulta representa o período de total esquecimento. Ao retornarem para a cidade de Derry, chamados intencionalmente pela própria Coisa, o grupo de protagonistas reencontra suas raízes, ao revisitar o passado e enfrentar os pavores lá criados conseguem deter Pennywise no momento presente.

 
“Ele acorda desse sonho sem conseguir lembrar exatamente o que foi, nem nada mais além do simples fato de que sonhou que era criança de novo (...) Vou escrever sobre isso tudo um dia, pensa ele, e sabe que é só um pensamento de amanhecer, um pensamento pós-sonho. Mas é bom pensar assim por um tempo no silêncio limpo da manhã, pensar que a infância tem seus segredos doces e confirma a mortalidade, e que a mortalidade define toda a coragem e todo o amor. Pensar que o que já ansiou pelo futuro também precisa olhar para trás, e que cada vida faz sua própria imitação da imortalidade: uma roda” (P.1101-1102)

Análise comparativa: O Cemitério e Revival - Stephen King

O Cemitério e Revival

“Eu não quero ser enterrado em um cemitério de animais
Eu não quero viver minha vida novamente”
(Pet Sematary - Ramones)

Na terceira análise comparativa de obras do escritor Stephen King, trago duas histórias que têm como fio condutor questões sombrias acerca da vida e da morte, mortalidade e imortalidade, bem como, a presença de elementos ligados aos mortos voltando à vida (zumbis). Aparentemente as obras não possuem ligações evidentes, mas à medida que vamos acompanhando a descida dos personagens no abismo da loucura causada pela incapacidade de lidar com perdas notamos diversos traços comuns entre as narrativas. O Cemitério (1983) ganhou adaptação nos cinemas sob a direção de Mary Lambert no ano de 1989 intitulado “O Cemitério Maldito” assim como a obra literária é um filme assustador. Revival (2014) foi inspirado em outro grande clássico do horror “Frankenstein - ou Prometeu Moderno” de Mary Shelley(1797-1851). As obras trabalham com temáticas que abordam o desconhecido, com o que há após a morte e mais do que isso com o sentimento desolador da perda diante a morte que todas pessoas precisam lidar em algum momento da vida, talvez por isso, sejam as duas obras do escritor que mais tenham mexido de uma maneira peculiar com aqueles que se aventuraram em lê-las.

Nas duas obras acompanhamos a trajetória de personagens que sofrem perdas trágicas, tais perdas acabam por transformar a forma com que lidam com suas crenças religiosas e valores morais. Em O Cemitério acompanhamos a vida de um jovem médico, Louis Creed, que se muda com a família para uma nova cidade, o clima do início do livro é de total animação esperançosa em um futuro melhor para ele, a esposa Rachel, a filha mais velha Ellie e seu filho bebê Gage. Ao se mudarem conhecem um personagem muito importante, o vizinho Jud, um velho morador cheio de superstições e conhecimento sobre um passado sombrio do lugar. Esse personagem introduzirá o aspecto sobrenatural na história, irá guiar Louis Creed de maneira involuntária ao abismo da loucura assim que o jovem médico recebe o primeiro duro golpe, a morte do filho Gage por atropelamento de um caminhão. Antes desse fato decisivo há toda uma preparação de Louis para a morte do filho, como se fosse algo que estivesse pairando sobre seu dia-a-dia, como se fosse um presságio, pois, Louis atende no pronto-socorro da universidade local e lá acaba presenciando a morte de um estudante atlético, Pascow. A imagem do estudante passa a visita-lo em pesadelos, a falar sobre morte e a fazê-lo ter acessos de sonambulismo. Após esse fato, o gato da sua filha mais velha, Church morre atropelado enquanto ela está viajando com a mãe, Jud fala sobre um Cemitério de animais que crianças no passado criaram para homenagearem seus bichos mortos, o próprio vizinho Jud foi uma dessas crianças. Louis conhece o local com a família, não há nada de excepcional lá além do fato da placa estar escrita com uma grafia infantil errônea.

Porém, existe uma região além Cemitério dos Animais que esconde a verdade por trás da “magia” do lugar. Aqui Stephen King introduz seu universo paralelo de horror, pois, no terreno além do Cemitério há uma antiga região indígena que segundo lendas tem o poder de trazer de volta à vida quem é enterrado lá. É durante as longas conversas entre Louis e seu velho vizinho Jud que conhecemos essas histórias assombrosas superficialmente, tudo é apenas uma preparação para o que Louis enfrentará ao perder Gage no acidente de caminhão. Toda narrativa conduz a mente do personagem, até então cético, para esse universo do sobrenatural e do absurdo. Louis promete a si mesmo que jamais irá visitar o lugar e que jamais faria algo do tipo: enterrar algum ente querido para que voltasse à vida ali além do Cemitério dos Animais. Ele não se vê no futuro em nenhum momento sendo capaz de algo do tipo, porém, notamos que é exatamente isso que ele fará. A angústia da história está no fato de Louis ceder lentamente aos lapsos de loucura pela morte do filho, há um embate feroz dentro dele cada vez que ele sonha e se projeta até o lugar, após a morte do filho. A incapacidade humana de lidar com a morte é o que conecta essas duas histórias.

De fato, Louis acaba desenterrando o corpo do filho desmembrado e o enterrando no lugar maldito que traz mortos de volta à vida. Toda sequência do ato de desenterrar a criança e transportá-la até o lugar maldito é cheia de descrições tenebrosas, macabras e horripilantes. Quando o pai precisa “juntar” as partes que estão desconectadas do corpo do filho no lençol enche o leitor de repugnância e nos faz questionar se no lugar do protagonista faríamos o mesmo? O livro todo nos leva a questionar várias questões sobre nossas próprias escolhas morais e sobre o que vem a ser normal e anormal nas atitudes de Louis. Ele está sendo guiado apenas pela dor lancinante e pela culpa de ter deixado o filho morrer numa estrada esmagado por uma roda de caminhão? Ou há uma influência sobrenatural sobre seus atos? As duas possibilidades se mesclam, Louis está enlouquecido pela dor e pela culpa e se tornando suscetível ao poder do lugar. Seu vizinho Jud alertou-o o tempo inteiro sobre o “poder” do lugar maldito, um poder ancestral e inexplicável.

Como traço característico de quase todos personagens de King, que em algum momento perdem o fio da sanidade, Louis também se torna suscetível ao poder do sobrenatural através de uma mente fragilizada, exposta a traumas e medos. Gage volta à vida depois de uma sequência de cenas horripilantes, mas não é o Gage normal, quando alguém volta à vida é como se voltasse sem alma, um zumbi, um ser cheio de astúcia e crueldade. Nesse aspecto reside a “coisa ruim” da obra de King, ela vem através dos mortos que ganham a vida novamente. Gage se transforma em um dos personagens mais aterrorizantes de King, um bebê assassino e insano. Ele assassina o velho vizinho Jud a facadas enquanto gargalha como um bebê feliz, e quando a mãe retorna para casa Gage a ataca também. É uma coisa de volta à vida.  Mais do que o retorno dos mortos enlouquecidos o que confere o aspecto tenebroso à história é a descida que Louis precisa fazer até o lugar maldito e as coisas que vê se moverem por lá. É uma obra de horror psicológico e sobrenatural digna de garantir arrepios.

Em Revival, nós acompanhamos o relato de um homem chamado Jamie Morton desde sua infância religiosa e feliz sob a influência do jovem e divertido pastor Charles Jacobs até sua vida adulta de músico ocasional e dependente químico. Os dois personagens principais da obra são Jamie, o narrador e Charles Jacobs. Em Revival a questão da perda recaí sobre Jamie através de aspectos existenciais, o garoto desperdiça sua vida em drogas e em uma vida errante sem quaisquer conquistas significativas ou relações sólidas, é uma perda de si mesmo. Na contramão está Charles Jacobs, o elemento que vive reaparecendo na vida de Jamie desde a infância, Jacobs sofre a perda material do filho e da adorável esposa jovem em um horrível acidente de carro ainda na sua juventude, isso o faz questionar todos seus preceitos religiosos enquanto pastor, Jacobs passa a duvidar do poder divino e se concentra ainda mais na sua paixão pelo uso de Eletricidade dando a ela um aspecto de deidade. Ele transfere suas crenças religiosas para a Física, se torna um viciado em experiências bizarras através do uso de choques. Jacobs vai sendo mostrado para nós como um homem que adentrou o abismo da loucura após a perda da família e a vida do narrador Jamie está sempre interligada à dele, é como se eles sempre estivessem dispostos a se encontrar mesmo depois de passarem anos distantes. A cada momento a narrativa nos promete reviravoltas que não acontecem o que agrega um caráter apreensivo na leitura. Esperamos revelações de Jacobs que não chegam, ele vai se delineando louco, mas não conseguimos mensurar onde sua loucura chegará, nossas impressões são as mesmas de Jamie e vamos descobrindo a verdade sobre Jacobs junto com o narrador.

A incapacidade de lidar com perdas despertou em Jacobs uma síndrome de Deus, ele passou a tentar buscar o elo de ligação entre a vida e a morte através da eletricidade, empreendeu o resto de sua vida a fazer pessoas voltarem a andar, se recuperarem de doenças terminais entre outras graves moléstias através do seu poder terapêutico com a eletricidade. De pastor a um showman, Jacobs se tornou uma atração mundial e curou Jamie do uso das drogas dando a ele uma vida digna e limpa. Jamie se sente grato, mas sua relação com Jacobs é permeada por desconfianças, ele sempre nota um traço insano em Charles Jacobs, algo que nunca está certo em seus trejeitos e ideias de grandiosidade. Vemos a influência clara do romance clássico de Mary Shelley à medida que Jacobs passa a falar sobre seu projeto de vida que seria trazer mortos de volta à vida sem preocupar-se com as implicações reais que isso acarretaria como acontece com a mente pretensiosa e inventiva de Victor Frankenstein e sua obsessão em desafiar o poder da morte em nome ciência, há a deificação da ciência.

As últimas páginas de Revival são um verdadeiro show de horrores, Jacobs alcance o ápice de sua loucura e vemos o que era seu projeto de uma vida inteira. Em uma noite de tempestade, isolado e com Jamie como ajudante, ele realiza o procedimento de trazer uma antiga conhecida de ambos, já morta, à vida. A mulher retorna à vida, mas não é ela mesma, assim como acontece com aqueles que são sepultados no lugar maldito de O Cemitério, aqui a mulher volta em forma de uma coisa medonha e abre um portal para o mundo dos mortos onde criaturas e imagens tenebrosas se sobrepõe.
 
“Não me lembro de abrir a gaveta da cômoda. Só sei que, de um instante para outro, o revólver estava em minha mão. Acho que, se fosse uma pistola automática com o pino de segurança travado, eu teria ficado ali, apertando o gatilho inerte, até que a coisa se erguesse, se arrastasse pelo quarto e me agarrasse. A garra poderia ter me puxado para aquela boca enorme e me levado para o outro mundo, onde eu sofreria uma punição indescritível por ter tido a ousadia de dizer uma palavra: não.
Mas não era uma pistola automática. Era um revólver. Atirei cinco vezes, e quatro das balas atingiram a coisa que tentava se erguer do leito de morte de Mary Fay. Tenho uma razão passa saber exatamente quantos tiros dei. Ouvi o estampido, vi os flashes dos disparos na penumbra, senti os coices da arma em minha mão, mas tudo isso parecia acontecer com outra pessoa. A coisa se contorceu e caiu para trás. Os rostos dissolvidos gritaram com as bocas unidas. Eu me lembro de pensar: “Não dá para matar a Mãe com balas, Jamie. Não dá”.
Mas ela já não se mexia. A obscenidade que tinha saído da boca da coisa estava tombada e se arrastava sobre o travesseiro, exaurida”. (p.354)

O embate final entre Jaime e a coisa que Jacobs evocou com seu projeto de vida através da eletricidade nos remete ao trágico desfecho de Louis Creed em O Cemitério ao tentar trazer o filho morto de volta, pois, em ambas as histórias não temos um final que nos alivie, pelo contrário, ele deixa aberto para uma série de impressões inquietantes sobre a relação frágil que o ser humano possui com a morte em todos seus aspectos naturais e sobrenaturais. Jaime termina o livro em uma consulta com o psiquiatra e nesse ponto Stephen King deixa claro que o personagem não saiu incólume das experiências bizarras que teve ao lado de Jacobs que junto com seu sonho de grandeza também morreu.

São duas histórias assombrosas que merecem destaque entre as mais perturbadoras criadas por King por lidarem não apenas com a morte, mas também com o impacto de grandes perdas, ‘a transvaloração de valores’, os limites entre a loucura e a sanidade, e a presença da realidade paralela dos mortos que voltam à vida. A forma como King trabalha a questão dos zumbis em ambas narrativas é reflexiva, foge à clássica concepção dos zumbis que retornam à vida débeis e sedentos por carne humana. Tudo o que envolve o aspecto dos mortos-vivos nestes livros é o que lhes garante o lugar dos mais tenebrosos na carreira do autor.

Análise: Carrie, a estranha - Stephen King

Carrie, a estranha 

Carrie, a estranha foi o primeiro livro do escritor Stephen King a ser publicado, porém não foi o primeiro romance escrito pelo autor. Antes de Carrie, King havia escrito outros cinco livros, entre eles Fúria (1971) que foi publicado tempos depois. Carrie, assim como as outras primeiras obras do autor, é uma das mais carregadas de sua trajetória literária. São histórias cruas, inquietantes e pesadas. O próprio escritor refere-se a essa fase inicial de sua carreira literária como a mais instável emocionalmente o que resultou em obras realmente perturbadoras. Carrie – a estranha também foi adaptada para o cinema sob a direção de Brian de Palma em 1976, o filme conferiu à obra grande popularidade. Em 2013 foi lançado o remake de Carrie, a estranha, sob a direção de Kimberly Peirce, essa readaptação ganhou uma perspectiva cinematográfica nova o que a fez distanciar-se bastante da obra literária.

O enredo de Carrie à primeira vista pode ser simplório como acontece com grande parte das histórias criados por Stephen King que partem de fatos cotidianos e ganham dimensão sobrenatural à medida que aprofundamos nas mentes das personagens. Investigaremos os motivos que fizeram de Carrie um dos livros mais inquietantes do escritor e que rendeu a ele o reconhecimento como o mestre do horror (psicológico) moderno.

Carrie White é uma adolescente comum que sofre bastante na sua trajetória escolar. É uma garota tímida e introspectiva que vive cercada por humilhações por parte dos outros alunos da escola. O quadro apresentado inicialmente é corriqueiro: uma garota entrando na adolescência que está passando por um período conturbado em sua vida escolar. Temos compaixão por Carrie, o escritor consegue construir sua imagem de vítima de tal forma que nos compadecemos com o sofrimento da garota. Todas situações humilhantes por quais Carrie passa são retratadas de maneira cruel. As outras garotas da escola tratam Carrie como um animal exótico e a deixam acuada e sem possibilidade de defesa. Apenas a professora de educação física tenta ajudar Carrie, mas até mesmo a figura da professora denota que a estranha Carrie White é digna apenas de pena, não é capaz de lidar com sua própria estranheza.

O deslocamento social e a extrema incapacidade de se integrar ao meio fizeram de Carrie uma figura solitária e à margem de toda lógica das relações escolares. Ela não tem espaço entre os outros alunos e isso extrapola o quadro de bullying por qual a garota está passando. À medida que acompanhamos sua vida escolar notamos que Carrie não é apenas uma garota tímida, estranha e diferente, há algo a mais, algo que faz dela uma personagem totalmente impossibilitada de se reconhecer nas outras pessoas comuns. Carrie é incomum de uma maneira macabra, mesmo que seu comportamento seja passivo e submisso às humilhações, há algo nela que a torna assustadora, Stephen King vai deixando isso claro nas entrelinhas das reações e pensamentos de Carrie. Há algo muito errado com Carrie e a partir dessa constatação começamos a conjecturar o que essa garota pode ter de tão estranho?

A introdução de uma figura importante na história faz com que comecemos a compreender o que há por trás de Carrie, sua mãe, Margaret White é a chave para compreensão da personalidade de Carrie. Margaret White é um dos pilares que faz com que Carrie seja como é. Ela é a figura que irá padecer do que defini em outras análises da “Coisa Ruim”. É Margaret que introduz o aspecto insano na história, por ser uma mulher completamente fora da realidade aceitável. A mãe de Carrie é uma fanática religiosa do tipo mais assustador que há, ela acredita que Carrie é, literalmente, fruto do pecado, é a própria cria de Satã. O discurso de Margaret é tão assustador que sua presença na vida de Carrie se torna o motivo macabro que faz de Carrie uma garota muito estranha. Porém, não é apenas a criação extremamente violenta, rígida e fanática-religiosa da mãe que fazem de Carrie uma personagem perturbadora, o escritor introduz um elemento sobrenatural que faz da adolescente uma criatura quase surreal: a telecinese. A telecinsese é a capacidade psíquica de mover objetos com a força da mente. Carrie passa a descobrir esse poder à medida que sua fúria interna é desencadeada por acontecimentos externos relacionados a humilhações. A introdução da telecinese na história pode ser interpretada sob outro viés.

Carrie não dá sinais do seu poder até momentos de extremo estresse mental desencadeado pelas recorrentes humilhações no espaço escolar e em casa através das punições ilógicas da mãe. Esse poder vai aumentando de acordo com sua raiva ou descontentamento. Ao encararmos a telecinese como uma manifestação de um lado mental de Carrie que está adormecido podemos notar que é uma arma de defesa que ela possui contra o que está a afetando negativamente, em outras palavras, a telecinese de Carrie é a única forma que ela possui de combater o mal externo que a atinge e humilha. Durante toda história podemos perceber que a natureza de Carrie não é má, ela não é uma garota cruel pelo contrário é dócil, assustada e submissa, porém, quando está sob pressão e sendo humilhada desencadeia-se esse poder psíquico e ela passa a ser controlada pela telecinese. É como se o poder mental tomasse conta dela por completo e a partir daí Carrie se torna realmente cruel de uma maneira ensandecida. A questão é qual Carrie é real? A Carrie assustadiça e submissa ou a Carrie sob o efeito da telecinese? Há duas variações de personalidade na mesma pessoa, a história em si nos leva a pensar que Carrie foi afetada pelo meio externo, ela é levada a ser cruel porque as pessoas que a cercam foram cruéis com ela somado a isso está a criação de Margaret White que a tornou uma criatura totalmente alheia ao mundo das pessoas reais.

Em dados momentos Margaret White grita que Carrie é a filha de Satã, principalmente após as manifestações de seu poder. Essa perspectiva também pode ser levada em conta, a telecinese de Carrie é uma manifestação do mal? Ela também é vítima da “Coisa Ruim”, pois, ao exercer seu poder mental Carrie se transforma. Toda a história do livro vai nos levando no clímax, no ponto alto do uso do poder da garota: o baile do colégio. É como se Stephen King tivesse escrito toda história para que culminasse nesse acontecimento assombroso. É no baile da escola, quando Carrie alcançar o nível máximo de sua raiva, frustração e descontentamento que conhecemos a personagem em seu esplendor macabro. É no baile do colégio que se concentra o horror da história. As cenas construídas pelo autor são recheadas de carnificina e pânico. Carrie acredita ingenuamente que é a rainha do baile, de fato Carrie foi levada a criar ilusões sobre a possibilidade de sua inserção no meio escolar, ela realmente acreditou que poderia fazer parte daquele mundo, pois foi convidada para o baile pelo garoto esportista mais bonito da escola e foi eleita a rainha do baile, as ilusões de Carrie potencializaram sua raiva, tudo isso não passou de mais uma brincadeira dos alunos, mais um ato de zombaria e foi o último ato de humilhação pelo qual Carrie passaria passivamente. O desfecho do baile se dá com Carrie sendo banhada no palco com um balde contendo sangue e vísceras de porcos. Essa cena gera tanta tensão no leitor que sabe sobre o poder de Carrie que é quase de tirar o fôlego os fatos que passam a acontecer após o banho de sangue em Carrie. A garota entra em um transe psíquico, a raiva da humilhação a cobre por completo e a partir de então a telecinese guia todos seus atos. Carrie tranca todos convidados no salão do baile e começa seu show de horror, ela mata todas as pessoas com o poder da sua mente.

O mais assustador vem depois que Carrie deixa o salão com todas pessoas que zombaram dela mortas, despedaçadas e queimadas. Ela caminha para casa ainda sonâmbula com a mente cheia de pensamentos desconexos e macabros, em casa ela enfrenta sua maior inimiga, a mãe. Esse embate é recheado de clamores religiosos por parte da mãe que se encontra tão enlouquecida quanto Carrie, mas sua loucura habita nas suas crenças religiosas enquanto que Carrie está possessa pela raiva. Ela mata a mãe de uma maneira dolorosa e simbólica, a mãe é espetada completamente por facas e tesouras na cozinha e seu corpo fica pendido como se tivesse sido crucificado.

O desfecho da história culmina na morte de Carrie, o que nos leva a sentir alívio, pois, sua existência é mostrada de uma maneira tão amaldiçoada e infeliz que a morte parece ser o melhor fim para Carrie, a estranha. Ela encontra a paz na morte. Seu poder psíquico, portanto, pode ser encarado metaforicamente como sua única forma de lutar contra um mundo do qual ela não faz parte e que a oprimiu e ridicularizou. A mensagem é ao mesmo tempo assustadora e edificante, pois, através da figura de Carrie White o escritor nos mostra que é possível lutar contra aquilo que nos deixa enfraquecidos e acuados, mas também mostra que dependendo da forma que lidamos com as más circunstâncias em que somos envolvidos podemos despertar o pior que há  em nós e essa linha é tênue entre o bem e o mal que há dentro da mente de cada pessoa.

 O livro é um ataque contra aqueles que encontram prazer em ridicularizar o outro, em submeter o outro aos seus caprichos egocêntricos de humilhar e zombar. É inevitável, até certo ponto torcemos por Carrie e nos regozijamos com o despertar de sua vingança, é como pensar que as pessoas mortas pediram por isso a cada momento que ridicularizaram e humilharam cruelmente a protagonista, o que é algo completamente inquietante: torcer pelo mal que há na história. Stephen King consegue fazer isso com muita criatividade, despertar em nós o pior que podemos ser através de personagens como Carrie, a estranha, e é por isso, talvez, que a história seja tão perturbadora e tenha lhe rendido tamanha popularidade.